sábado, 4 de junho de 2011

palavras que podiam ser minhas


mas não sendo, são de uma estimada colega que, falando por si, fala por todos nós. Leiam, e percam um pedaçinho do vosso tempo para (re)pensar nos motivos que movem uma classe, que, como qualquer outra, luta pelos seus direitos e que merece todo o o respeito e admiração pela coragem, e não o apedrejamento em praça pública, com escárnio e mal dizer. Esta é a história dela, não é um conto de fadas, não começa com "era uma vez", mas começa assim:

"Sou Assistente de bordo há cerca de 5 anos, trabalhei na PGA e agora trabalho na TAP. Tenho 33 anos e a escolha desta vida profissional não foi a minha primeira opção (aliás como a maioria dos meus colegas de geração). Recusei-me a ficar no desemprego, a pertencer à geração “rasca” ou “à rasca” e a não contribuir para o desenvolvimento do meu País. Mesmo depois de ter ouvido da boca de muita gente e como resposta às minhas candidaturas de emprego a frase que tinha formação a mais! Pensei que teria de encontrar o meu lugar em Portugal, criar a minha própria empresa, contribuir para mudar o País com aquilo que aprendi noutros, tanto a nível profissional como pessoal. Afinal a minha primeira educação e a que considero que me formou e que tantos elogios me mereceram pela minha capacidade de trabalho noutros Países foi neste País que a recebi. Foi neste País que os meus pais fizeram um imenso esforço para me dar uma educação superior que me permitisse ir aprender com os melhores na àrea que escolhi. Não baixei os braços e muito embora alguns próximos opinarem para retirar coisas do meu C.V. ou para voltar para os E.U e nunca mais pensar em trabalhar aqui, fui teimosa e fiquei...sempre com a convicção que os fortes são aqueles que retornam, retribuem ao País e se esforçam para o tornar melhor! E assim, nunca porém esquecendo a minha vocação profissional e aquilo que gostaria de dar ao meu País com ela me fui encontrar nos meandros da Aviação! Falar fluentemente várias línguas e a experiência de ter trabalhado em equipa e com pessoas de outras culturas foi um bom ponto de partida para ingressar nestas duas companhias que realmente me receberam com carinho e me deixaram trabalhar. E eu humildemente trabalhei e trabalho. Poder contactar com passageiros de outras realidades e com colegas com percursos de vida completamente diferentes do meu é e sempre foi o meu reforço! Todos os dias aprendo algo e todos os dias aprendo também a perdoar quem me destrata por acreditar que eu lhes sou inferior por dar bandejas e servir cafés. Sempre ignorei este tipo de comportamentos, aliás como é mandatório numa das minhas àreas de formação- ignorar os comportamentos negativos e recompensar os positivos! Mesmos nos dias mais complicados em que me senti desvalorizada como indivíduo tentei mostrar pelas minhas atitudes que estava acima de mentalidades pequenas que não sabem respeitar o valor dos que servem o próximo com dignidade e que tudo fazem para zelar pela sua segurança e bem-estar. Todos os dias revi na respeitosa atitude de muitos passageiros e colegas uma razão para não me deixar afectar pelo cansaço, pela fadiga e pela prepotência de alguns. Muitas vezes cheguei a casa e reli o poema de Ricardo Reis que escrevi na primeira página de todos os meus trabalhos científicos:

Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.

Hoje, perante a situação actual, senti necessidade de desabafar! E de ler novamente estas palavras que espero que inspirem alguns. Sou um ser humano de convicções fortes, acredito na bondade de todos. Acredito que todos somos seres capazes de fazer coisas maravilhosas e que muitos por ventura ainda não descobriram as suas verdadeiras capacidades - aquilo em que serão capazes de ser brilhantes!

Dou-vos agora uma oportunidade de entenderem e de serem aquilo que todos deveriam ser um pouco -cientistas. Para chegarmos a uma conclusão precisamos de nos informar, de analisar e discutir dados e só depois concluir e fazer considerações finais.

Eu (e creio falar por todos os meus colegas) não sou nenhuma menina mimada, trabalho e trabalho muito, em condições difíceis! Muitas vezes durmo pouco, descanso pouco, fico doente, por vezes em quartos de hotel em que uma palavra amiga me custa balúrdios em roaming e as previsões de regresso aos meus não existem. Abdico do tempo que poderia passar com os meus amigos e família e sorrio mesmo quando passo a ceia de natal longe daqueles que já durante o ano pouco me veem, porque perto de mim estão outros como eu, semelhantes nas suas jornadas. Mantenho a minha boa disposição e o meu profissionalismo mesmo quando o voo já está atrasado horas e a grande maioria dos passageiros tem vontade de embrulhar as condicionantes, regras e imprevistos da aviação num grande novelo de pedra e me atirar com ele. Já tive oportunidade de socorrer passageiros com emergências médicas e ainda hoje me lembro de todos eles e tenho a certeza que eles não se esqueceram de mim e do esforço de todos os meus colegas. Em cada aterragem e descolagem, por muitos problemas que tenha, por muitas horas de voo que já tenham passado, por mais que me doam as costas ou o pulso, por mais que saiba que ainda não estou a aterrar em Portugal para ficar, faço o meu “briefing mental” e preparo a eventualidade de um acidente...penso em tudo o que me ensinaram e que com muito orgulho aprendi e tento lembrar-me que havia uma criança na fila 17 e uma senhora sem mobilidade na 21.

Quero continuar a fazer o meu trabalho com condições, quero continuar a lembrar-me onde estão sentados os que mais precisam de mim, quero continuar a lutar por um País em que os trabalhadores tem direitos e em que estes são respeitados, quero sentir que vivo num País com vontade de Vencer de forma unida e edificadora! !

Obrigada pela atenção! Força a todos os meus colegas do mundo do ar!

Sara Bello

Bióloga Marinha, Treinadora Animal e com muito orgulho Assistente de Bordo!"


Ju*

3 comentários:

Anónimo disse...

Gosto disto...e acho que qualquer pessoa, assistente de bordo, biólogo, terapeuta, gestor, pedreiro, desempregado, ignorante, inteligente, com sucesso ou sem ele...deveria rever-se nas suas palavras sentidas.

Bjs, mãe

Cátia Menezes Esteves disse...

lindo! e sim, não é preciso partilhar da profissão para nos revermos em alguns pontos deste texto***

Juanna disse...

Qualquer profissão é como uma pequena engrenagem de um relógio e eu acredito piamente que se falha um, falharão todos.