quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Ossos de um belo ofício

Trabalhar com meninos e meninas, miúdos e miúdas, adolescentes, adultos, pais, avós, professores, tios e tias, padrinhos e madrinhas, educadores e até mesmo amas, tem muito que se lhe diga. Os anos de profissão já são alguns, os casos que vão aparecendo, desaparecendo e permanecendo, também já se contabilizam às largas dezenas. Cada um mais especial e marcante do que outro, tratados todos de forma diferente, porque são todos diferentes, mas sempre com o mesmo objetivo, porque afinal de contas são todos iguais.
 
Temos gémeos que só falam entre si, temos meninos e meninas que têm dificuldade em aprender as letras e/ou os números, temos crianças muito especiais que compreendemos melhor do que ninguém, temos miúdos inteligentes acima da média apesar de lerem devagar, temos outros que estavam capazes de escrever um livro mas os erros são mais que muitos, temos adolescentes cheios de personalidade e convicções, que só se vestem de uma cor, que fazem questão de não fazer nada do que os pais e os médicos pedem, que cortam o cabelo com uma catana, que acham tudo uma seca, que escrevem com a mão que lhes parece mais adequada para aquele dia, que têm rituais e rotinas que não lembram ao diabo, que parecem uma pedra de gelo mas que no fundo só precisam de colo.
 
Foi o que aconteceu um dia destes (depois de, durante cerca de 20 minutos, tratar mal a mãe à minha frente, depois de ofender médicos, pais, irmão, conhecidos e colegas, depois de assumir que é anti-social, que não gosta de ninguém, que não janta em familia porque não suporta, que prefere isolar-se e ser diferente "para não dar nas vistas"), na consulta com a E., a mãe e eu:
 
(Eu) -Ouvi e vi tudo com muita atenção E., mas estou aqui um bocadinho confusa, então explica-me lá melhor como é que consegues ser assim tão diferente e não dar nas vistas ao mesmo tempo!
(E.) -Como?
(Eu) -Não percebeste a minha dúvida?
(E. a fixar-me) -Sim, mas....
(Eu) -E então.
(E., atrapalhada) -Sei lá...
(Eu) -Mas eu sei.
(E., emocionada) -Ai sabe?
(Eu) -Sei e vou-te dizendo e explicando à medida que formos trabalhando. Para já, os meus objetivos são melhorar a tua letra e a tua ortografia. Para depois, os meus objetivos são tornar-te uma menina mais tolerante, mais alegre e mais feliz.
(E., a chorar) -...
 
E assim será E.
 
Trabalhar com o ser humano, com tudo o que ele tem de bom e de menos bom, tem destas coisa boas, gratificantes e fantásticas.
 
Bjs, mãe

3 comentários:

Pretty in Pink disse...

E quando se atinge o objectivo é altamente gratificante não é? :)

Beijinho*

Vicky disse...

Doce :)

Anónimo disse...

Os objetivos vão-se atingindo e vão-se atualizando também. Quem trabalha em clínica tem histórias cheias de ternura para contar, histórias cheias de compreensão e significado, episódios e momentos verdadeiramente marcantes e impossíveis de esquecer, momentos únicos e secretos também:)) Somos grandes amigos e confidentes:))

É maravilhoso e um privilégio poder fazer parte das suas vidas, de uma maneira ou de outra, porque nem sempre corre como queremos e desejamos :)

Bjs, mãe